Direito do Trabalho

Condições perigosas no trabalho: adicionais, ruído e aposentadoria especial

O que a CLT considera trabalho perigoso ou insalubre, quanto vale cada adicional, como o ruído conta para a aposentadoria especial, o papel do PPP e o que mudou com a Emenda Constitucional 103/2019.

Por · OAB/SP 120.066 ·

Condições perigosas no trabalho geram dois tipos de direito diferentes. No contrato de trabalho, dão ao empregado um adicional no salário: 30% pela periculosidade ou de 10% a 40% pela insalubridade (CLT, arts. 192 e 193). Na Previdência, a exposição a agentes nocivos, como o ruído acima do limite, pode dar direito à aposentadoria especial, com menos tempo de contribuição (Lei 8.213/1991, art. 57). Os dois caminhos usam provas parecidas, mas seguem regras próprias. Abaixo, cada um.

Perigoso e insalubre não são a mesma coisa

A CLT separa as duas situações:

  • Atividade perigosa é a que traz risco acentuado por exposição permanente a inflamáveis, explosivos ou energia elétrica; a roubos e violência física na segurança pessoal ou patrimonial; e a colisões e atropelamentos no caso dos agentes de trânsito (CLT, art. 193, I a III). O trabalho em motocicleta também é perigoso por lei (art. 193, § 4º).
  • Atividade insalubre é a que expõe o empregado a agentes nocivos à saúde acima dos limites de tolerância, considerando a natureza do agente, a intensidade e o tempo de exposição (CLT, art. 189). O quadro dessas atividades e os limites são fixados pelo Ministério do Trabalho (art. 190).

Quanto vale cada adicional

AdicionalValorBase legal
Periculosidade30% sobre o salário, sem gratificações, prêmios ou participação nos lucrosCLT, art. 193, § 1º
Insalubridade, grau máximo40%CLT, art. 192
Insalubridade, grau médio20%CLT, art. 192
Insalubridade, grau mínimo10%CLT, art. 192

A lei calcula a insalubridade sobre o salário mínimo. A base de cálculo já foi muito discutida nos tribunais, e convenções coletivas podem prever outra; vale conferir a da categoria.

Quem tem direito aos dois adicionais não recebe os dois somados pela regra da CLT: o empregado pode optar pela insalubridade, se ela lhe for mais vantajosa (art. 193, § 2º).

Como se prova e quando o adicional acaba

A caracterização da insalubridade e da periculosidade é feita por perícia de médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho (CLT, art. 195). Em reclamação trabalhista, o juiz determina essa perícia.

O direito ao adicional cessa quando o risco é eliminado (art. 194). No caso da insalubridade, a lei admite a neutralização por medidas no ambiente ou por equipamento de proteção individual que reduza o agente aos limites de tolerância (art. 191). Por isso o fornecimento do EPI, sua troca e o treinamento costumam ser o centro da discussão no processo.

Ruído e aposentadoria especial

A aposentadoria especial é devida a quem trabalhou exposto a agentes que prejudicam a saúde por 15, 20 ou 25 anos, conforme o agente (Lei 8.213/1991, art. 57). A exposição precisa ser permanente, não ocasional nem intermitente (art. 57, § 3º). O ruído é o agente mais comum e, para ele, o prazo é de 25 anos.

O limite de ruído mudou com o tempo, e vale o regulamento da época em que o trabalho foi prestado:

  • Com o Decreto 2.172, de 5 de março de 1997, passou a contar como especial a exposição permanente acima de 90 decibéis.
  • Com o Decreto 4.882, de 18 de novembro de 2003, que alterou o Anexo IV do Decreto 3.048/1999, o limite passou a ser 85 dB(A), medido como nível de exposição normalizado.
  • Antes de março de 1997, valem os regulamentos anteriores, e a conferência é feita período a período.

O PPP: o documento que decide o pedido

A exposição se comprova por formulário emitido pela empresa com base em laudo técnico de condições ambientais do trabalho, feito por médico do trabalho ou engenheiro de segurança (Lei 8.213/1991, art. 58, § 1º). Esse formulário é o perfil profissiográfico previdenciário, o PPP. A empresa tem de mantê-lo atualizado e entregar cópia ao empregado na rescisão do contrato (art. 58, § 4º), e responde por penalidade se não mantiver o laudo em dia ou emitir documento em desacordo com ele (art. 58, § 3º).

O laudo também informa se há proteção coletiva ou individual que reduza o agente aos limites de tolerância (art. 58, § 2º). Para o ruído, o efeito do protetor auricular sobre o tempo especial é assunto julgado pelos tribunais superiores e precisa ser analisado com o PPP em mãos.

O que mudou com a reforma da Previdência

A Emenda Constitucional 103/2019 passou a exigir, além do tempo de exposição, idade mínima: 55 anos para atividade especial de 15 anos, 58 para a de 20 anos e 60 para a de 25 anos (art. 19, § 1º, I). A emenda também proíbe o enquadramento só pela categoria profissional ou ocupação: é preciso provar a exposição efetiva.

A conversão de tempo especial em comum, que acrescenta tempo ao segurado, continua valendo para o período trabalhado até a entrada em vigor da emenda, em novembro de 2019, e é vedada para o tempo posterior (art. 25, § 2º). Quem tem períodos antigos de ruído pode, portanto, ainda aproveitá-los numa aposentadoria comum.

Perguntas frequentes

Posso receber periculosidade e insalubridade juntas?

A CLT dá ao empregado a opção pela insalubridade quando ela lhe for devida (art. 193, § 2º), o que leva ao recebimento de um só adicional. Convenção coletiva pode trazer regra própria.

Quem recebe adicional de insalubridade já tem direito à aposentadoria especial?

Não automaticamente: são regimes diferentes. O adicional depende das normas do Ministério do Trabalho; a aposentadoria especial depende da exposição permanente comprovada no PPP e nos limites da Previdência.

A empresa não entrega o PPP. O que fazer?

A entrega é obrigação legal na rescisão (Lei 8.213/1991, art. 58, § 4º). O pedido pode ser feito por escrito à empresa e, se necessário, levado à Justiça do Trabalho.

A empresa fechou. Ainda dá para provar o tempo especial?

Depende das provas que restaram, como laudos antigos, PPPs de colegas na mesma função ou perícia por similaridade. Cada caso precisa de análise.

Fale com um advogado

Antes de pedir o adicional ou a aposentadoria, vale reunir os PPPs e conferir os períodos. Veja a atuação do escritório em direito trabalhista e em direito previdenciário, leia o guia sobre o pedido de aposentadoria, agende uma conversa com um advogado ou fale pelo WhatsApp.

Fontes: CLT, arts. 189 a 195; Lei 8.213/1991, arts. 57 e 58; Emenda Constitucional 103/2019, arts. 19 e 25; Decreto 2.172/1997, Anexo IV, item 2.0.1; Decreto 4.882/2003. Conteúdo informativo; não substitui a análise do caso concreto.

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